quinta-feira

texto 27: -assombração.

Assombra-me a alma e o corpo,
ata-me o coração cravado na estaca,
assombra-me o desespero da solidão que teu espirito parta,
mas jamais, oh amor, jamais deixai que o seu amor leve-se ao vento!

Porque se eu te encontrei não foi ao acaso,
e se as lágrimas que vieram não caíram,
e se a vontade de derramar-me em pranto ascende ao seu beijo,
jamais diga adeus á mim, porque eu te amo,
e não é ligeiro nem vazio,
porque é fogo e gelo,
é terra e vento,
é universo e finito,
é céu e inferno.

Mas é amor e dor, e queima, e arde.
E morre e nasce, mas ainda assim é amor.
E jamais, oh amor, jamais esqueça que te amo, sempre, infinito e sem razão.

domingo

texto 26: - Voo e Deslizo.

Eu o olhava, mas não o via. Ele me olhou, mas por um segundo. Talvez, talvez tenha me visto.Segundo, minutos, horas, dias, semanas, anos, tempo. Todo o tempo do mundo e tempos paralelos - e não era suficiente.

Eu voltava, voava e vinha. Você deslizava, escorregava e corria.

Suas mãos nas minhas, seu coração batendo mais rapido- o som da batidas do seu coração rápido demais.Sua respiração falhando, seu corpo ao lado do meu.

Abraço.Ar.Doce sonho, ilusão. ( e não era ilusão)

Eu estava ali, e você estava lá.Eu gritava, você sussurrava.Eu sonhava, voava, voltava e vinha. Você pensava, deslizava, escorregava e corria.Mais rápido do que eu, mais ensolarado do que eu.Eu era a lua, você o sol.

Mas nossos labios se cruzaram, uniram-se, e as lágrimas que vieram eram fortes e interminavéis, mas eram secas e não caíam.

Expressão, luz. Tudo rodava. E a cada passo que eu dava era mais um para longe de você.Eu o via, mas não o olhava. Ele me viu, mas talvez não tenha olhado.Eu via, voltava. Você veio, e ia embora.Eu perdia, ganhava. Você ganhava, e conquistava mais. Ás vezes, você voltava.

E tudo, tudo deslizava por entre nossos dedos- os meus e os seus.A cada passo que você dava, você escorregava pelos meus dedos - afastava-se, longe de mim, inalcançavél.Eu fui perdendo você, eu estava perdendo você. Mas você voltava, sempre voltava.

Por entre meus braços, por entre meus dedos, por entre meus olhos, por entre minhas lembranças. Você deslizava, escorregava e vinha. E eu me afastava de você. A cada passo que eu dava era mais um para longe de você. A cada passo que você dava era mais um para longe de mim.

A sensação do seu beijo, a sensação de estar nos seus braços, a sensação de estar ao seu lado era sublime demais para mim - irreal demais. E eu precisava de ar para respirar. Lágrimas que vinham e não caíam - mas irão cair.

Eu voo, volto e venho. Você desliza, escorrega e corre.Eu o olhei, mas não o vi. Ele me olhava, em um segundo. Talvez, talvez tenha me notado.

quarta-feira

texto 25: -Sonho.

Pessoas vão e vem. Se encontram e desencontram, há os que ficam e os que não ficam aqui. Cruzam-se por uma força maior, ou vão atrás desse 'cruzamento'. Deus, força maior, destino, tempo- seja o que for, seja o que você quer que seja. Há os amores de uma noite só, amores de uma vida inteira, ou amores de tempos em tempos.Aqueles por quem você morreria por, aqueles que você quer acabar com a dor, aqueles por quem você faria tudo pela felicidade dela, ou aqueles que por mais que você tente alcançar, são inalcançavés. Aqueles por quem você aprende amar, e aqueles que você simplesmente ama. Mas seja como for, seja o que for, é sempre. Sempre as pessoas vão e vem. E quando se vão, tudo o que resta é as lembranças, memórias, cheiros, gostos e sensações. Sentimentos e luzes espelhando-se nos olhos de alguém, na expressão do rosto de alguém. Dor, amor, solidão, tristeza, perda. Um adeus - a despedida- e um novo olá- o reencontro. Laços, olhares e abraços. Porque tudo tem um fim. Porque tudo tem um novo começo. Porque há coração e alma. Porque há o amor. Porque há as lembranças. E nada e nem ninguém se cruza por um acaso. As pessoas e os sentimentos tem o seu tempo - pra tudo há o seu tempo. Nada é ao acaso, e encontramos pessoas em nossas vidas, que nos ensinam, demonstram ou nos fazem lembrar de algo que já esquecemos ou que não está ao nosso alcance ou em nossa compreensão. E nada disso faria sentido se não é a pessoa certa, porque sempre há a pessoa certa, mesmo que seja por pouco tempo. E então, em meio á isso, há o amor. Amor, que se mistura com a dor. Amor, que é a razão também. Amor, que é antigo. Amor, que nos faz sentir necessario. Amor, que é a vontade de não desistir. Amor, que é ver alguém morrer. Amor. Amor, que envolve luz e ecuridão. Amor. Simplesmente e puro Amor... E é por isso, que vou fazer Fotografia: as lembranças, sensações e sentimentos, luzes, olhares, abraços e beijos. Eu quero captar isso. E se não fosse por você, nada disso faria sentido agora. Mas é o que eu amo, acredito e sou apaixonada por. Meu maior sonho. E é por isso, que vou fazer Fotografia: o mais puro sentimento de amor.

sábado

texto 24: -don't explain: mandy is back in town.

Os cabelos loiros ondulados esvoaçaram quando seu braço passou por eles. As ondas ocilavam batendo em seus ombros pequenos traicoeiros. Os olhos caramelos tinham o ar superior e irônico, claro. Podia sentir os olhares sobre si, observando a sua loirisse exótica, e ela ria considerando aquilo tudo ridiculo demais. Que tipo de pessoa se deixaria dominar por outra pessoa? Ela não sabia e talvez por não saber, é que agia daquela maneira. Mas na verdade, a loira não ligava. Ah, não! Pelo contrário, aquela jovem se deleitava, ria, ironizava e jogava com aquelas vidas que se dobravam por ela. A sua inocência era tanto que chegava a ser duvidosa: muitos acreditavam, muitos ridicularizavam, muitos a censuravam. Mas nada disso importava - ela sabe o que faz e porquê faz - e deixa as bestas se gladiarem nessa briga sem fim. Porém, no final, aquilo a cansava e a verdade é que ela estava de volta ali, naquela cidadezinha minuscula e tradicional na qual nascera e se estava de volta ali, era porque ela era inocente e sua inocencia havia sido reconhecida e seus pecados absolvidos. Era fato isso. Ou não? Ela riu, o sorriso demoniaco, sedutor e de mel. Do tipo que engana, por isso o adjetivo demoniaco. E não era isso o que a loira exotica era? Os religiosos diziam, (mesmo que seja infundado) que aquele corpo era possuido por forças do mal e que tamanha beleza exotica deveria ser exorcizada: aquilo não era normal. Mas ah, ela era um anjo. Mas ah, ela era o ouro do cidade, do coração do pai, a salvadora. O que seria o preço de sua alma que fora sacrificada comparado a salvação da cidadela? Ah, mas tudo há um preço e eles iriam pagar o preço disso. O tempo é curto, a vingança é trabalhada e tende o equilibrio - e a loira riu, ela riu da desgraça que viria.
Os labios rubros e doces- se é que o doce pode ser usado como sinonimo de sedutor- sorriram, enquanto dobrava a ultima viela da cidade e ouvia o ultimo habitante sussurrar o seu nome- 'Ah, ela está de volta! Mandy está de volta'- e entrava pelo portão envelhecido e grande que costumava brincar quando criança. Seus olhos caramelos cobre observaram a porta de madeira em volta das árvores e parreiras que adornavam toda mansão, e ela entrava pela porta de madeira e se deprava com um jovem de pele queimada pelo sol sentado na poltrona que antes era a de seu pai: um arrepio percorreu seu corpo com aquela imagem sublime.
Ele a olhou, mas não sorriu, pelo contráio agitou a cabeça em negação. O sorriso de Mandy desapareceu na hora.
-Oh, Mandy. O que é este batom? Isso não combina com você. Tire isso. - e fez um gesto para o mordomo que estava acompanhando-a estender um papel para retirar o excesso de maquiagem.
-Qual o problema? Eu quis.... Inovar. Não é assim que dizem? Não é como se você não estivesse feliz em me ver.
-Oh, Mandy. Você sabe que estou.
-Então, onde está a minha recepção, irmãozinho?
Ele a olhou. Pigarreou e no fim, cedeu. Seus braços a acolheram calorosamente, matando a saudade que sentia dela. Ela a o envoltou com seus braços pálidos e delicados, beijou-lhe a lateral da face, o pescoço e sorriu por cima de seu ombro: os olhos caramelos cobres cintilaram pela sala - ela estava delirando em seus pensamentos, altos demais e traiçoeiros demais. Tudo começaria ali.
Oh, Mandy está de volta na cidade!

quinta-feira

texto 23: revelry(parte 2)

Devo dizer que uma semana depois ouve comentarios entre ela, sua amiga e seu amigo sobre isso. Mas nada demais, apenas um simples comentário. O tempo passou, natal, reveillon. Janeiro enfim veio. E ela em sua solidão, mostrando-se presente, ela nem se lembrou. Até que o convite veio, de viajar com suas amigas ( para esclarecer a viagem- festa de dezoito anos) e nesse meio tempo em que se passou da festa e o convite seu frágil coração despedaçou-se em mil pedaços (ou talvez, apenas recebeu o golpe final para que suas rachaduras se rompessem) e ela foi afim de curar a alma ferida, a fim de se isolar de sua propria solidão que a consumia e a qual já fazia parte dela, mesmo assim ela foi. E jamais o pensamento de que poderia vir a encontrá-lo nessa viagem lhe ocorreu. Ela não se lembrou, porque pensava em sua amiga. Mas o encontrou. E o viu, o notou, sentiu. E novamente aquela sensação estranha, e boa, não a fazia ter vontade de dizer não. Porque a propria ideia em si parecia ferí-la, doía. Não, ela não queria rejeitá-lo, e não encontrava forças para isso. E não iria.
Sábado chegou, a comemoração. Ele a viu, ( no dia anterior- na sexta, acrescento que eles se encontraram e ele sorriu, lembrando-se dela) e ela o viu. Ela foi até ele. Palavras foram trocadas, olhares foram trocados. Ele cantou, e cantou um refrão para ela. Ele piscou e sorriu, e era voltado para ela, apenas ela. E um abraço veio. Um abraço bom, que precisava acontecer uma hora. Sentimento sublime aquele que a invadiu. Ela estava em volta dos braços dele, e os seus o embalavam também. Ele lhe deu um beijo no rosto. Conhecimento e reconhecimento, saudade talvez daquele abraço. E ela não iria soltá-lo, mas havia um impecilho que a fez fazer isso. Mais algumas palavras desnecessarias, e ela não ficou muito longe dos braços dele. Até que se encontraram no quarto escuro. E então, enfim, finalmente, o beijo veio. Um beijo bom. Mesmo com todo o desespero dele, mesmo com toda a vontade: dentes se encontraram, labios se encontraram, e por ultimo suas linguas se entrelaçaram: a dele na procura da dela. Um beijo que foi ficando lento, suave. Um beijo que teve todas as suas devidas etapas.
Mãos, beijos, abraços, e a menor vontade de largá-lo. Mas a agonia dela, o seu coração quebrado, levou-a ao desespero: não sabia o porquê, não sabia o por quem ela o queria, não sabia. E o seu desespero cresceu, sua dor e suas feridas. Mas talvez ela se sentiu assim, porque se sentiu bem, completa, como não estava acostumada a se sentir. E ele notou, achou que o problema era ele. E ela queria que ele não pensasse isso, mas suas palavras pareciam vazias e sem sentido e ela não conseguia encontrar as palavras certas a se dizer. O que ela poderia fazer, quando um turbilhão passava-se em seu coração? Ela precisava de ar. E mesmo com todo o seu desespero e nervosismo (fosse o que fosse) ele não a rejeitou, não perdeu o ineteresse. Ele estendeu a mão, ajudou-a. Preocupou-se com o que ela sentia e tentou (com sucesso) faze-la se acalmar, a esquecer aqueles sentimentos de agonia e desespero. E tudo o que sobrou em seu peito foi o carinho e o afeto: o desejo dele que ela sentia por ele. E que sempre sentiu, desde o momento em que o viu. Mas como ela poderia alcançá-lo, se nada do que ela dissesse ela entendia? Se ela não sabia o que fazer, o que dizer? Porque ela não encontrava palavra spara se dizer. E então, ela o beijou. Ela. Uma atitude que talvez tenha servido muito mais do que qualquer palavra que ela tentara (inutilmente) dizer. Como se só um beijo fosse o necessario para alcançar o coração dele. Ela queria que ele soubesse, que ele sentisse o quanto ela estava bem ao lado dele. (Minhas palavras estão alcaçando você? Porque eu não posso alcança-lo? Por favor, me deixe alcança-lo - foi o que ela pensou- o meu beijo o alcance) E talvez, o alcançou. Porque ela pode sentir seu coração bater rapido, o coração dele batendo rapido demais.
Sua mão no rosto dele, os beijos depositado em sua mão fina.
Os corpos juntos, abraçados. Toques trocados, carinhos, beijos trocados. O desejo dele. A vontade dela. O toque dele, o toque dela, o corpo dele tensionado ao toque da mão dela, o corpo dela se arqueando para senti-lo mais perto. A mão dele tremendo quando a tocou pela primeira vez. Beijos, um beijo, abraços, um abraço, entrelaçados os dedos, suas mãos fortemente entrelaçadas (detalhes julgo desnecessário, mas a insinuação da cena é entendivel)
Ela apenas sentia ele ( devo dizer, fisicamente e psicologicamente), e tudo o que sobrou em seu peito ela não sabe dizer o que é. Ele lhe deu algo, algo que é muito mais do que ela poderia imaginar, e que ela não sabe o que é. Mas algo fechou-se em seu coração despedaçado. Uma sensação boa. Ele a fez sentir-se bem, muito bem. Segura, feliz, envolvida por ele. Ele a fez bem, mais do que qualquer um ousou, teve direito, tentou ou fez.
E é por isso, a sensação de querer retribuir, de querer vê-lo de novo, se ele ainda quiser. É por isso que ela ainda tenta alcançá-lo. E chega de parentesis, chega de comentarios escondidos ao longo do texto, chega de varias personalidades. As minhas palavras podem alcançar você? Os meus sentimentos, a minha felicidade, tudo, podem alcançar você? Os meus sentimentos estão alcançando o seu coração?
É por isso que estou aqui, tentando alcança-lo da outra ponta. Eu estou alcançando você?

texto 22: revelry(parte 1)

Noite de festa. Lua alta no céu estrelado, vestidos longos, cabelos, maquiagem feitos. Era uma noite perfeita para uma dança.
Dança de olhares, dança de movimentos - seja ela qual fosse o tipo de dança.
Mas nada havia acontecido. Ela o olhou, mas não o viu. Talvez o tenha, mas não o tinha notado. E se ele a olhou, ela não percebeu seu olhar sobre si, e talvez ele não a tinha visto ainda.
As horas na festa desmanchava os seus minutos e segundos, até que ele a visse por inteiro, notado a presença dela ali. Seja de qual forma fosse, seus olhos enfim encontraram com os dela e mesmo que o salão estivesse escuro, ela notou o tom da cor deles e notou então, a beleza do rosto largo (fez uma nota mental sobre os maxilares dele) e estendeu a mão para ela - é lógico que estenderia- e revelou seu nome, ( nome que não divulgo, nome que não ouso pronunciar) e seu sorriso iluminador. Devo dizer que a educação dela não permitiu que ela fosse grossa ou devo dizer que ela simplesmente não quis ser grossa? Porque claro, ela estendeu-lhe a mão, sorriu e deixou que ele soubesse o seu nome. Mas naquele momento foi apenas isso. Controlados demais, ou era porque apenas era o começo da noite.
Desmanchou-se então, a noite. Era realmente uma noite perfeita para uma dança, e ele claro, estava alto, alegre (o subentendido basta) e ela dançava sem se importar se ele havia notado ela. Até que ele parou ao lado dela, estendeu a mão e lhe sorriu mais uma vez, dizendo o seu nome. E talvez, pensando agora, talvez fosse o sorriso dele que não a fazia querer ser rude, grossa. Ao inves disso ( como é de costume ela fazer, como normalmente faria) ela lhe sorriu e comprimentou de volta. O beijo que veio em seguida foi na lateral do rosto, caloroso, e teria sido certeiro se ela não virasse o rosto - ou talvez era intenção dele ser na lateral.
Palavras trocadas, olhares trocados, palavras trocadas - ele havia começado tudo neste exato momento- até que enfim ele dissesse aquelas palavras que há muito ela não ouvia: l-i-n-d-a. E ela gargalhou, de vergonha, de não acreditar, e disse obrigada com um sorriso tipico de vergonha. ( acrescento: ela fez outra nota mental- louco, sim, ela o considerou louco) E então, enfim, finalmente, no escuro da noite, do salão, na empolgação, ele despejou as vogais e consoantes que compunham o nome dela, e acrescentou que gravaria o seu nome, e mais uma vez disse que ela era linda. E ela estava mesmo, linda. E ele gravou mesmo o seu nome. E ela soube então que ele a tinha visto, notado. A tal ponto que durante todo o desenrolar da festa ele dizia aquelas letras: l-i-n-d-a. E o que ela poderia fazer naquele momento, se tãopouco ela sabia investir? Apenas sorria, agradecia. E sorria, trocavam olhares, ele a observava, ela o observava mesmo que o ignorasse ás vezes. Ignorar este que era diferente de dizer um não.
O observava, em silêncio. Mesmo porque a reação de seu corpo era de não rejeitá-lo, porque ela não via meios de fazer isso, porque ela simplesmente não queria, e não havia percebido isso, não havia notado isso. E talvez, talvez não, certeza, sim, certeza, ele a cativou naquela festa. E o abraço que aconteceu na hora da despedida, era carinhoso, e curioso. Palavras foram trocadas, gestos trocados. Um abraço diferente, devo dizer. E ela lhe sorriu e investiu antes de deixar o salão de festas.
Era uma noite para dançar- perfeita.

segunda-feira

texto 21: - luz e escuridão.

O céu estava azul claro, e a brisa era refrescante. Observar a cidade depois de estar de volta era estranho. Nada havia mudado. E aquela sensação reconfortante de quando era jovem se contorcia dentro de mim, me inundando, do mesmo modo que a dor se repuxava dentro de mim: eu queria estar de volta ao mesmo tempo que não queria. Mas eu estava cansada de fugir da dor e não queria mais lutar. Entrei em casa- minha antiga casa- e o cheiro de madeira, o pó flutuando no ar sendo iluminado pelos raios de sol invadiram-me e lembranças vieram na minha mente em um flash. Suspirei, fui para a sala e toquei a mesa de mogno de centro- eu estava em casa, finalmente.
Tirei o casaco longo de jeans, levei as malas para cima e fui me reinstalando em casa, em silêncio... Uma sensação estranha foi me tomando enquanto tomava banho. Era como se tudo se misturasse ali, em um nó bem atado: dor, amor, saudade, tristeza. Queria gritar, mas a voz não saía e as lagrimas não ousavam cair. Afundei-me na banheira, sentindo a água fechar-se sobre mim, em silêncio. Afundei na água e no silêncio.
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O cabelo molhava a blusa, a luz entrava pela janela e o silêncio reinava imperial ali. E o cheiro de madeira-sempre- que se sobresaltava do cheiro de sopa que minha mãe costumava fazer- e que fizera para mim hoje. Mamãe estava lá em baixo, preparando o jantar- o sorriso melancolico e emocionado faziam os olhos verdes brilharem e cintilarem junto com o cabelo loiro-grisalho. Eu tomei um gole da sopa, e o gosto me fez estremecer. Uma sensação percorrendo-me: lembrança da infância, cheiros e gostos que há muito não sentia. Um abraço reconfortante de mãe- como se tirasse e me protegesse da dor. Gosto de chocolate, de morangos com leite condensado,de brigadeiro, de torta de limão, de suco de laranja, de ensopado. Cheiro de carne assada, de lenha na lareira, de arroz no fogo, de feijão cozido, de rosas no jardim, de terra molhada, de tempestade, de banho tomado. Lembranças de festas e viagens, da escola. Da minha melhor amiga que eu não via há um tempo. Da minha amiga de infância...E da lembrança de como o conheci. Ah, sim. Por mais que as lembranças estivessem embaraçadas e apagadas eu me lembrava daquele momento perfeitamente. Eu estremeci, um tremor sombrio que me fez dobrar na cama: o buraco no peito voltara. Um buraco que me consumia- a dor. A dor da perda, da falta, de existir, da solidão. A dor. A pura e simplesmente dor. Eu não conseguia respirar. Meu coração pesava e batia pesadamente. Eu não conseguia me mover. E a dor continuava em ondas espiralando-se pelo meu corpo, me puxando para baixo, assombrando e tornando tudo mais escuro. Esmagando, afogando, destruindo, pressionando. As lágrimas por fim vieram e caíam sem parar. Como eu o amava, e isso me matava. Fazia minha alma dobrar-se em sofrimento, meu coração em milhões de pedaços que não se juntavam. Cicatrizes, corte e feridas abriam o tempo inteiro, sangrava, queimava, ardia. Nunca se fechavam. E o tempo era cruel, as lembranças eram cruéis, porque estavam sempre ali. Eu queria que parasse, mas a dor era unico elo que me mantinha conectado á ele. A dor era o modo como eu sabia que ele estava lá.E tudo então, acalmou-se quando meus olhos focalizaram o tom dourado do sol clareando o quarto e de repente, já não era mais noite e eu não estava mais sozinha- alguém, havia alguém ali. Eu suspirei e cedi.
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O raio de luz do sol me cegou. Senti os braços me envolverem, e tudo estava mais brilhante-irreal. Era um sonho, claro. Porque ele havia partido, morrido. E os mortos não abraçam pessoas ( a não ser que seja um caso de necrofilia, o que não era esse, obvio). Mas eu estava sendo abraçada por ele. E senti o cheiro dele, o perfume inebriante. A voz suave proferindo palavras. E não senti a menor vontade de resitir. Aquele cheiro me trazia lembranças que eu havia esquecido. Meu corpo inteiro foi tomado por aquelas lembranças. A sensação era boa- de paz total. Lembrei-me, então, que quando alguém se vai, tudo o que resta são lembranças e memorias que você deixa. Lembrei-me que mesmo em meio á dor, que ainda havia o amor- ah, o amor. Amor. O amor, abraçando luz e escuridão. Então, eu me deixei ser abraçada por isso. Porque se fosse isso mesmo, a morte era facíl, pacífica. Então, era isso mesmo. O raio de luz de sol me cegou novamente. E então, eu partira. Porque os mortos não abraçam as pessoas.




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m.franco-

domingo

texto 20: - brown eyes.

Olhos escuros e serenos. Brilhantes e sedutores. E acolhedores. Como se sugassem a alma dela para dentro deles, como se pudesse se perder em meio aquela escuridão confortavél. O perfume no ar, doce e amadeirado. O cheiro de rosas se espalhando no ar, as vozes baixas e suaves se misturando. A lua brilhante no céu, a noite cálida e gentil. Eram poucas horas, muito pouco tempo-apenas uma noite só. E era mais do que isso. Algo como se fosse o sol. Como se os toques, os beijos, as batidas do coração abraçassem a existência dela e a iluminasse, embriagando e entorpecendo tudo. Exatamente como a luz do sol abraça: ilumina, esquenta. Mas era apenas uma noite. E chegava a ser mais que isso.
Havia algo de irresistivél. Era algo bom. Como senão houve
sse preocupações ou medo, como se não existissem feridas, como se tudo aquilo que era ruim estivesse longe- e fosse apenas a lembrança de um sonho ruim.
Havia uma paz inebriante, uma sensação boa.
Olhos escuros e serenos- e ela se perdia dentro deles. Os beijos doces, ardentes, suaves e cheios de desejo. O toque quente, ousado, acolhedor. Mesmo que por pouco tempo- apenas uma noite só- amor e desejo nasciam ali e se misturavam, entrelaçavam de tal maneira que se
mpre ficaria cravado nas lembranças. E não havia a menor vontade de resistir.
Mas era pouco tempo-apenas uma noite só.
E mesmo que fosse uma pequena existência, eu jamais deixaria de ama-la.








m.franco -