quarta-feira

texto 7: - (beba mais) um gole de suco de uva.

Ela fixou os olhos na taça que brilhava a luz da vela. Seus dedos giraram em volta da base da taça, mexendo o liquido roxo que brilhava com a luz, enquanto ela deu um longo suspiro. Ela não sabia se dava mais uma garfada na comida em seu prato ou se bebia mais um gole da bebida.E isso a matava por dentro. E isso, essa decisão que mais parecia um abismo, e que ela deveria tomar a afogava ainda mais naquela queda. E isso, a corroía por dentro, como se um acido fosse jogado do topo de sua boca e caísse em sua garganta, traqueía, esofago, até chegar ao centro do pulmão como uma cascata em dia de chuva, totalmente furiosa.E isso, a matava por dentro, pouco á pouco, lentamente. Porque na verdade, na sua realidade estranha, a que criava quando estava , ela sabia muito bem o que aquele gesto, muito mais complexos do que uma simples garfada ou um simples gole da taça, realmente significavam.
Aquilo significava toda a verdade que sempre a privaram de conhecer, que sempre a esconderam dela.Aquilo que sempre a cortava por dentro.
Ela relaxou na cadeira, suspirando outra vez. Essa noite, seria a noite da verdade. Seria a revelação.
'Hoje, eu saberei o meu significado.' ela pensou, bebendo um gole do suca de uva.
Passou a mão no pescoço, girando -o em meia volta com os olhos cerrados. Resolveu prender o cabelo ondulado loiro em um coque, e então, ouviu a campainha soar.
'Já estava na hora, não é?' ela pensou, enquanto concentrava-se em sua coragem e propagar a sua frieza em ondas de eletricidade por todo o seu corpo.
A porta se abriu, e ela estendeu a mão. 'Oi, está tudo bem?' Sorriu gelo.'Entre, fique a vontade. Ele entrou, tentando explicar verdades na qual ele não tinha necessidade de explicar, não mais necessidades. Porque todos já sabiam da verdade. Menos ela.
Ela cortou-o como uma faca com palavras rápidas e diretas.
'Espero que esteja com vontade de comer peixe assado,e claro, acompanhado com o melhor suco de uva de toda a região,que você conhece muito bem. Vamos sente-se.'
Sentou-se. Jamais resistia aos seus dons culinarios, e não era agora que iria, ele podia conversar e comer, afinal isso não era um encontro. Não, não era. 'Era a noite final' ela pensou.
'Espero que isso não esteja sendo de incomondo para nenhum de nós, mas preciso lhe explicar.'
'Sim?'
Ela o olhou com a expressão mais fria e tenebrosa que encontrava dentro de si. As ondas eram mais forstes a cada pulsar de seu coração.
E pouco a pouco, ela via a verdade vindo á tona a cada palavra sua.
'Não era assim que eu queria que as coisas acabassem. Mas eu vi que era necessario, você sabe que eu sempre a amei, não é? Sempre voltei para você.'
'Sempre voltei para você.' ela pensou e riu com essas palavras. Mas tudo estava claro. Ele nunca voltou quando foi embora a ultima vez. Ele a abandonou por outra. Agora ela podia entender.
Ela então, engoliu um gole de suce de uva. Sentiu aquilo a relaxar e refrescar por dentro, a preparar para o que faria agora.
Ela sorriu.
'Cale-se. Não se explique.Eu estou feliz que você esteja de volta.'
'Ótimo.'
Ele voltou-se ao seu prato. Ela o fitou intensamente. Então, recostou-se na cadeira, com a mão em volta da base. 'Nada. Eu não sou nada. Nunca fui algo. Foi mentira. Tudo. Nada é real. Eu não significo nada.' A cabeça dela era preenchida com um nada totalmente vazio. Tão vazio que a quase cegou, quase a roubou dali. Mas esse nada era agitado pelas ondas que percorriam o seu corpo. Fim.Próximo. Fim.
Ergueu-se como uma fera caçando com uma taça de suco de uva.
'(Beba mais) um gole do suco de uva.'
Ele obedeceu.
Não demorou muito após o soco com a taça que ela deu nele. Seu corpo se contorceu a sua frente, ele tossia freneticamente, caindo de sua cadeira e puxando a toalha da mesa consigo, as veias de seu pescoço saltando, o ar lhe faltando na garganta, o veneno correndo em suas veias, seu coração parando de bater,sua visão ficando turva, seu celebro parando de funcionar. E enfim, ela percebeu, que tudo que estava ali eram uvas e que tudo iria se transformar em uvas.
Ela bebeu um gole de suco de uva.
-x-x-x-
Mandy acordou de seu sono.Jogou as cobertas longe, lavou seu rosto e desceu a cozinha. Abriu a geladeira e
pegou algo para beber. Subiu as escadas, soltando o cabelo, estalando seu pescoço. Foi no meio da escada que ela olhou para a janela aberta, e viu, as parreiras grandes e majestosas carregadas de uvas e que com certeza eram as melhores da região. Ela sorriu. Subiu até seu quarto em direção a maquina de escrever, ela sentou-se, totalmente inspirada com seu sonho a escrever um novo conto.
Mandy bebeu mais um gole de suco de uva.

m. franco -