sexta-feira

texto 3: -pôr-do-sol.

O sol se deitava atrás daquele precipício abandonado á beira-mar. As copas das árvores encobriam praticamente todo o céu deixando que a luz passasse em meio aos buracos da folha, em fios. Os salgueiros deitavam-se tocando o chão, formando um caminho. Os flamboyants seguiam o mesmo modelo dos salgueiros, avermelhando o bosque verde. A escadaria feita de pedra estava quebrada e o mato o dominava. Algumas plantas mortas, outras flores acumuladas num canto e em outro canto, e como se estivesse formando um jardim, rosas dominavam.Ela suspirou ao chegar ao topo do precipício. Debaixo de um salgueiro, ela avistou um menino, quieto isolado de todo o resto de costa, foi até ele. Nunca havia visto ele naquelas terras. Perguntou-se o que ele estava fazendo ali.
-Ei, moleque... O que faz em um lugar como este? Não devia estar em sua casa?- percebeu as mãos machucadas e sujas de terra, pedras em cima do chão remexido, o pequeno garoto, tão minúsculo perto do mundo, tremia.

-Mataram eles. Eles morreram.
-Eles? Seu pai e sua mãe?
Silêncio.
Ela viu a dor do menino, ele estava quebrado. Parecia que ia explodir de tanta dor. Ao lado dela, as rosas. Escolheu a mais branca e jogou em cima das pedras. O garotinho se espantou. Ela levou os pulsos até a boca e os mordeu até o liquido vermelho sair. Levou-o na direção acima das pedras e deixou que o liquido fedendo a ferro escorresse em cima delas. Era sua oferenda. O garotinho virou para olhá-la. Os olhos de mel estavam espantados. A boca dela suja de vermelho, o olho esmeralda ganhava um tom enferrujado devido ao sangue. A figura dela, tão forte, tão respeitosa, tão majestosa o hipnotizou e fez seu pequeno e inocente coração de criança estremecer e bater acelerado.

-Não há muito que eu possa oferecer. Apenas tenho o meu sangue e mais nada. Ofereço o meu sangue aos Deuses para que vigiem essas almas que te deixaram sozinho no mundo, e em troca, a sua vida irá me pertencer. - Limpou os pulsos de algum modo, e começou a andar. Girou o rosto para fita-lo. Os olhos de vidro metálico o hipnotizaram ainda mais. Ela levantou o braço e esperou.
-Venha. Vai viver comigo agora.Sorriu e correu para ela.
-Ah, moça... Qual o seu nome?
-Ah, meu nome? Arisa. Arisa.
E ele lhe entregou o seu mais doce e inocente sorriso.


m.franco-

texto 2: -imaginária.

Os raios quentes do sol iluminavam a sala, o quarto, o banheiro, a cozinha em um tom de sépia. O silêncio era perturbador. Ela estava ao lado do batente da porta, a mão nele. O olhar percorreu pela sala apenas confirmando o obvio. Ela estava sozinha. Não havia mais ninguém ali. Só ela e os móveis de mogno. E então, talvez a sua dor, não a ferisse tanto agora, talvez, toda a sua solidão não a inundasse tanto. Suspirou; fechou as mãos em punho no batente da porta. Ela se arrastou ao banheiro; abriu a torneira e deixou a água quente encher a banheira de pedra cara. Agachou-se ao lado da banheira, e olhou a água deslizar por entre seus dedos finos. Logo; o vapor da água quente embaçaria a imagem distorcida no espelho. Dentro da mente dela, ela saltava de um abismo e caía para o mar furioso.

O corpo de mármore se afundava lentamente na água quente, a mão cadavérica se agarrava nas beiradas da banheira. A água encobriu o rosto enquanto ela prendia a respiração; e o cabelo noite se transformava em fitas desfiadas no líquido transparente. Os olhos de vidro se tornavam dóceis embaixo do mar macio.
Seu corpo se enrijeceu. Sentiu o ar lhe faltar, a garganta arder; o pulmão queimar em desespero da necessidade de ar.
As unhas pintadas agarravam-se mais a beirada da banheira. E então tudo começou a girar.
O tempo deixou de ser importante enquanto as batidas de coração se tornavam chumbo. As vozes pareciam ter sido trancafiadas em uma caixa abafando-as, as luzes douradas pareciam de veludo e borradas. As ondas eletrizantes de dor a sufocavam e adormeciam o corpo, fazendo com que sua cabeça se afundasse entre as ondas do mar macio dentro de sua mente. Dentro dele era escuro, quente, confortável. Ela não quis acordar. Ela não voltou á superfície.

'let me stay,
where the wind will whisper to me,
where the raindrops as they're falling tell a story,
if you need to leave the world you live in,
lay your head down and stay a while,
thought you may not remember dreaming
something waits for you to breath again.'Imaginary-Evanescence.


m. franco-

quarta-feira

texto 1: - escolha.

'Em um outro mundo, eu teria sido o seu sol; ' ele me disse.
É isso ecoava em mim. E então, eu sonhei com isso. Eu desejei, eu quis isso. E então, eu o senti distante; e então, eu vi. Eu vi; que em um outro mundo; eu não seria eu. E você, também, seria diferente. Eu e você seríamos completos estranhos. E o meu eu estranho e o seu você estranho iriam ser os estranhos mais felizes. E estaríamos juntos. E em um pôr-do-sol estranho, eu pediria um beijo.
Mas pedir um beijo seria demais para você?
pedir um abraço; seria demais para você?
pedir para estar ao seu lado; seria demais para você?
pedir para sorrir; seria demais para você?
pedir para ser um flor barata qualquer ao invés do sol, seria demais?
pedir apenas para ir embora seria apenas demais?
E então; assim; seríamos os dois estranhos mais perfeitos do mundo.



quem sabe, então, você não me escolheria?


m. franco - dedicado á um amigo e uma amiga minha. P.S: eu perdi a minha senha e email e aí acabei tendo que criar outro blog igual em outra conta, portanto não vão falar que é plagio ao ver outro blog igual á esse no mesmo estilo.