segunda-feira

texto 21: - luz e escuridão.

O céu estava azul claro, e a brisa era refrescante. Observar a cidade depois de estar de volta era estranho. Nada havia mudado. E aquela sensação reconfortante de quando era jovem se contorcia dentro de mim, me inundando, do mesmo modo que a dor se repuxava dentro de mim: eu queria estar de volta ao mesmo tempo que não queria. Mas eu estava cansada de fugir da dor e não queria mais lutar. Entrei em casa- minha antiga casa- e o cheiro de madeira, o pó flutuando no ar sendo iluminado pelos raios de sol invadiram-me e lembranças vieram na minha mente em um flash. Suspirei, fui para a sala e toquei a mesa de mogno de centro- eu estava em casa, finalmente.
Tirei o casaco longo de jeans, levei as malas para cima e fui me reinstalando em casa, em silêncio... Uma sensação estranha foi me tomando enquanto tomava banho. Era como se tudo se misturasse ali, em um nó bem atado: dor, amor, saudade, tristeza. Queria gritar, mas a voz não saía e as lagrimas não ousavam cair. Afundei-me na banheira, sentindo a água fechar-se sobre mim, em silêncio. Afundei na água e no silêncio.
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O cabelo molhava a blusa, a luz entrava pela janela e o silêncio reinava imperial ali. E o cheiro de madeira-sempre- que se sobresaltava do cheiro de sopa que minha mãe costumava fazer- e que fizera para mim hoje. Mamãe estava lá em baixo, preparando o jantar- o sorriso melancolico e emocionado faziam os olhos verdes brilharem e cintilarem junto com o cabelo loiro-grisalho. Eu tomei um gole da sopa, e o gosto me fez estremecer. Uma sensação percorrendo-me: lembrança da infância, cheiros e gostos que há muito não sentia. Um abraço reconfortante de mãe- como se tirasse e me protegesse da dor. Gosto de chocolate, de morangos com leite condensado,de brigadeiro, de torta de limão, de suco de laranja, de ensopado. Cheiro de carne assada, de lenha na lareira, de arroz no fogo, de feijão cozido, de rosas no jardim, de terra molhada, de tempestade, de banho tomado. Lembranças de festas e viagens, da escola. Da minha melhor amiga que eu não via há um tempo. Da minha amiga de infância...E da lembrança de como o conheci. Ah, sim. Por mais que as lembranças estivessem embaraçadas e apagadas eu me lembrava daquele momento perfeitamente. Eu estremeci, um tremor sombrio que me fez dobrar na cama: o buraco no peito voltara. Um buraco que me consumia- a dor. A dor da perda, da falta, de existir, da solidão. A dor. A pura e simplesmente dor. Eu não conseguia respirar. Meu coração pesava e batia pesadamente. Eu não conseguia me mover. E a dor continuava em ondas espiralando-se pelo meu corpo, me puxando para baixo, assombrando e tornando tudo mais escuro. Esmagando, afogando, destruindo, pressionando. As lágrimas por fim vieram e caíam sem parar. Como eu o amava, e isso me matava. Fazia minha alma dobrar-se em sofrimento, meu coração em milhões de pedaços que não se juntavam. Cicatrizes, corte e feridas abriam o tempo inteiro, sangrava, queimava, ardia. Nunca se fechavam. E o tempo era cruel, as lembranças eram cruéis, porque estavam sempre ali. Eu queria que parasse, mas a dor era unico elo que me mantinha conectado á ele. A dor era o modo como eu sabia que ele estava lá.E tudo então, acalmou-se quando meus olhos focalizaram o tom dourado do sol clareando o quarto e de repente, já não era mais noite e eu não estava mais sozinha- alguém, havia alguém ali. Eu suspirei e cedi.
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O raio de luz do sol me cegou. Senti os braços me envolverem, e tudo estava mais brilhante-irreal. Era um sonho, claro. Porque ele havia partido, morrido. E os mortos não abraçam pessoas ( a não ser que seja um caso de necrofilia, o que não era esse, obvio). Mas eu estava sendo abraçada por ele. E senti o cheiro dele, o perfume inebriante. A voz suave proferindo palavras. E não senti a menor vontade de resitir. Aquele cheiro me trazia lembranças que eu havia esquecido. Meu corpo inteiro foi tomado por aquelas lembranças. A sensação era boa- de paz total. Lembrei-me, então, que quando alguém se vai, tudo o que resta são lembranças e memorias que você deixa. Lembrei-me que mesmo em meio á dor, que ainda havia o amor- ah, o amor. Amor. O amor, abraçando luz e escuridão. Então, eu me deixei ser abraçada por isso. Porque se fosse isso mesmo, a morte era facíl, pacífica. Então, era isso mesmo. O raio de luz de sol me cegou novamente. E então, eu partira. Porque os mortos não abraçam as pessoas.




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m.franco-

domingo

texto 20: - brown eyes.

Olhos escuros e serenos. Brilhantes e sedutores. E acolhedores. Como se sugassem a alma dela para dentro deles, como se pudesse se perder em meio aquela escuridão confortavél. O perfume no ar, doce e amadeirado. O cheiro de rosas se espalhando no ar, as vozes baixas e suaves se misturando. A lua brilhante no céu, a noite cálida e gentil. Eram poucas horas, muito pouco tempo-apenas uma noite só. E era mais do que isso. Algo como se fosse o sol. Como se os toques, os beijos, as batidas do coração abraçassem a existência dela e a iluminasse, embriagando e entorpecendo tudo. Exatamente como a luz do sol abraça: ilumina, esquenta. Mas era apenas uma noite. E chegava a ser mais que isso.
Havia algo de irresistivél. Era algo bom. Como senão houve
sse preocupações ou medo, como se não existissem feridas, como se tudo aquilo que era ruim estivesse longe- e fosse apenas a lembrança de um sonho ruim.
Havia uma paz inebriante, uma sensação boa.
Olhos escuros e serenos- e ela se perdia dentro deles. Os beijos doces, ardentes, suaves e cheios de desejo. O toque quente, ousado, acolhedor. Mesmo que por pouco tempo- apenas uma noite só- amor e desejo nasciam ali e se misturavam, entrelaçavam de tal maneira que se
mpre ficaria cravado nas lembranças. E não havia a menor vontade de resistir.
Mas era pouco tempo-apenas uma noite só.
E mesmo que fosse uma pequena existência, eu jamais deixaria de ama-la.








m.franco -