segunda-feira

texto 10: -mar. (parte 2)

Alcançou a superficie rápido, por instinto. Seus cabelos voaram alto, quando jogou sua cabeça para trás. As pontas tocavam o mar, e desfiavam-se pelas ondas. As mãos estavam ao lado de seu corpo, que balançava conforme as ondas do mar quebravam. Seus olhos eram profundos, calmos. Não havia tanta agitação assim em seu olhar. Não havia impetos. Ela inspirou fundo, e expirou. Não sentia dor em seu peito. Não sentia arder, não sentia o ácido infectar o ar puro que ela inspirou. Não sentia as feridas, sentia como se estivessem cicatrizes que não iria reabrir ali. Ela conseguia sentir seu coração. Olhou para o céu. O brilho do sol em seus olhos a incomodou, o brilho do sol a esquentava, como se a purificasse por dentro. As ondas do mar se tornavam mais ferozes e o movimemto bravo engolia o corpo adormecido por meio as ondas. Não sentia nada. O sono profundo a adormecia e a impedia de chegar a superficie.


'Arisa.' Ela ouvia alguém lhe chamar. Ela reconheceu a voz.
'Arisa.'
Ela queria que ele visse até ela, que a abraçasse, que segurasse sua mão e a tirasse das sombras, mas ele não via.
'Arisa.'
Mas ela não conseguia alcançar a voz. A voz lhe parecia tão longe.
'Arisa.'
Assim como o céu se distanciava da terra agora.

'Arisa.'
Ela desejou voltar.

Pulou no mar,a fim de resgata-la. Não sabia como havia ido parar lá, e muito menos sabia o que ela estava fazendo. Não. Na verdade, sabia. A ideia de que ela teria ido ali, sozinha, e estava ali, no meio do mar o atormentava. Ele se desesperou quando a viu em meio as ondas.
Segurou a mão dela com uma de suas mãos, e puxou junto ao seu.Ela segurou a mão dele, era a unica coisa que tinha agora.
Com a outra, puxou o seu corpo até a superficie, como se sua vida dependesse disso e nadou até a praia. Deitou o corpo na areia, apoiando a cabeça em seus braços,e suavemente colou os labios aos seus, puxando água ou o ar, o que quer que fosse. Queria que ela respirasse, queria que ela lhe desse algum sinal. Estremecia, o medo o dominava por todas as pontas de seu corpo e de
sua alma. Ela tossiu, a aguá saiu de dentro dela. E ela, não conseguia soltar da mão dele. Ela respirou. Revirou a cabeça para os lados, e ele tirou as mexas do cabelo do rosto dela, suavemente e docilmente.
Ele sorriu, de forma feliz, serena, triste, preocupante, aflita, tudo misturado em um só nó.
'No que você estava p
ensando, heim?O que você queria?' ele pensou.
S
egurou-a em seus braços até ela acordar.












m. franco -

quarta-feira

texto 9: - mar.

O vento soprou, quebrando-se nas pedras ao longe, uivando por entre as ondas do mar. As ondas do mar ferozmente iam e viam, lambendo as pedras rochosas abaixo de seu pés, como se não vivesse sem aquilo. O som do mar, o uivo do vento eram os unicos sons que ela podia ouvir ali, naquele lugar pacifico. O vento soprou mais uma vez, e ela suspirou pesadamente. Os cabelos balançavam deslizando no ar, e ela não sentia mais nada a sua volta.Não sentia o chão, não sentia o ar. A dor que lhe cortava a puxava para baixo e ela não conseguia se levantar. A dor que a inundava arrancava cada força, cada alicerce que ela construiu para se sustentar. A dor que ela sentia dilacerava o seu ódio, a sua raiva, o seu amor. Ela estremeceu, se encolheu abraçando as pontas de seus braços.
Sentiu todo o seu corpo se cortar, se quebrar. Sentiu as feridas em seu peito expostas, ardendo como se colocassem sal em sua carne. Sentiu como se sangrassem. Sentiu seu coração ser esmagado por uma mão de ferro. Sentiu o ar ser insuficiente para respirar. Suspirou. Abriu os braços em forma de cruz, inclinou o corpo para frente, como se recebesse uma libertação divina. A luz do sol birlhou por todo o seu corpo. Ela caiu.

As ondas do mar a puxavam para baixo, com uma força violenta. O seu corpo se movimentava para cima e para baixo, conforme as ondas iam e viam, se quebrando. Os cabelos negros se desfiavam pela água salgada, se
us braços dançavam pelo o mar, assim como o seu vestido escuro. Ela sentia a água entrar em suas narinas e sair, limpando toda as suas feridas, cicatrizando tudo o que lhe cortava. Sentiu seu coração dilatar, batendo dentro dela, sentiu aquela mão de ferro desaparecer. As ondas a puxavam para baixo, para o escuro, para o confortavél. Ela não resistiu em cair nas sombras que lhe acolhiam confortavelmente. Ela hesitou em voltar para cima.









m. franco -



domingo

texto 8: ele e ela.

Ela olhou para ele, fechou o livro e guardou na mochila. Ele sorriu quando seus olhos se encontraram com os dela. Ela sorriu para ele. Ele sentou ao lado dela, no banco. 'Oi', ele disse. E ela, sorrindo disse; 'Tudo bem?' 'Tudo' ele respondeu. 'E então, vamos?' 'Vamos.'
Ele levantou, estendeu a mão para ela e sorriu. Ela segurou a mão dele, e juntos saíram lado a lado conversando pela rua.
A tarde caía, o sol iluminava em tom dourado toda aquela montanha solitaria na qual eles sempre iam. Ela fotografava o por-do-sol, enquanto ele se aproximava dela. a concentração dela se quebrou no momento em que ele a abraçou. Ela estremeceu, por um momento perdeu o controle da respiração. Ela não esperava por isso. Ele sussurrou ao seu ouvido palavras que não podiam ser ouvidas, mas que ela ouviu. Ela sempre ouviria.
Ela sorriu. Olhou em seus olhos. Tudo estava claro, como a água do rio estava. Ele só queria o amor dela. E ela o amava como sempre o amou. Ela sussurrou ao ouvido dele. Ele segurou o rosto dela entre as mãos, ele a beijou. E ela o beijou. O vento soprou as flores do flamboyant daquela montanha solitaria.


Ele depositou, com as mãos tremendo as flores no tumulo da montanha. Ele sorriu, com uma lagrima rolando o rosto pálido, cheio de marcas na pele, formando milhões de covas em seu rosto, na qual se via os anos que lhe judiaram sem piedade e nem dó, arrancando toda a vida e beleza que ele possuia anos atrás. O tempo não fora piedoso com ele, e apagava tudo o que ele amou em sua vida, e agora por simples egoísmo, o tempo teimava em arrancar, em apagar o seu amor de sua vida, capricho no qual ele resistia em ceder. Ele suspirou. O vento gélido e gentil soprou beijando a face enrugada do velho, anunciando que o inverno não tardaria a chegar para celar em silêncio as lembranças envelhecidas dele, cobrindo com neve a montanha solitaria.
O vento soprou as flores do flamboyant da montanha solitaria, e ele soube que sua hora não tardaria. Ele sorriu, como não fazia há oitenta anos atrás.




m. franco -