Ela olhou para aqueles olhos, que embora congelados, ainda mantinham aquele fogo interno vivo. Ainda mantinha aquele fogo que a hipnotizava, que a mantinha cativa. Ela tocou a pele fria que sempre a esquentara durante a noite. Sua mão escorregou pelo rosto, sentindo uma ultima vez a pele petrificada que tanto ela amou, delineando, por fim, o contorno dos lábios perfeitos que ela tanto beijou. Ela estremeceu. Estremeceu quando sua mão tocou o peito e o coração já não mais batia. Estremeceu quando não sentiu mais o sangue correndo por entre as veias. Estremeceu por fim, em ver que ele já não estava mais ali. Que a vida que ela tanto amou estava indo embora. Mas ela ainda o sentia ali. Bem ao lado dela. Exatamente ali. Sem ameaçar ir embora. Ela podia vê-lo. Não naquela mesa engavetada de metal em que ele estava deitado com uma placa de identificação e um lençol branco o cobrindo, mas sim, ali, na sua frente, olhando dentro daqueles olhos. Queimando a por dentro. Fazendo o fogo de sua vida queimar dentro do coração dele. Fazendo a sua dor congelar e se estilhaçar em milhares de pedaços, sussurrando o seu nome fazendo a sentir-se viva. Ela o podia ver sorrindo, todas as covinhas marcadas e todas as ruginhas em volta do olho se contorcendo harmoniosamente. Ela ainda podia vê-lo.
E sua vida já não estava mais aqui. A sua vida já não queimava mais. A sua vida já não podia mais queimá-la. O seu amor já não podia mais a manter em pé. E então, ela se desesperou. Suas começaram a tentar fazer com que os lábios se abrissem para o ouvir sussurrar seu nome, a tentar fazer os olhos se abrirem para olhar dentro de seus olhos. Tentava inutilmente fazer o coração bater para queimar sua vida. Mas seu coração era seco. Seus olhos esbranquiçados e congelados. Seus lábios roxos e duros. Seu sangue não corria mais. As covinhas e as rugas desaparecerem daquele rosto de pedra extremamente sem vida. Ela gritou, implorou, suplicou, ordenou para que ele voltasse a queimar a sua vida. Mas o cretino não obedeceu. O cretino nem se mexeu. E o fogo daquele cretino se congelava mais e mais. Morto. Morto. Morto. Ele estava morto. Ele não tinha mais nada agora. Só um corpo a espera do velório.
O corpo dela encarou a realidade crua, infiel e traiçoeira. Seu cérebro finalmente processou a imagem que seus olhos puderam ver e entender. Ela sentiu seu fogo diminuir. Ela sentiu o mundo fugir de sua existência. Ela desabou no chão, segurando em suas mãos o rosto de seu amor.
-x-x-x-
'Você tem que ver isso, Ru. È simplesmente incrível o efeito do sol e da luz quando entra nessa vidraça. Sério, dá a impressão que existem sete sols no mundo. Vamos, anda. Você tem que ver isso, Ru. É simplesmente demais. '
Quando o sol fica horizontalmente na direção desta casa ás 17:30 até as 18:10, ele fica tão forte, tão laranja, tão amarelo e vermelho, tão intenso que seus raios se propagam por toda costa deste vilarejo a ponto de atravessar a vidraça da casa e a luz se dissipar em espectros de cores dançantes atingindo toda a casa iluminando-a encantadoramente. As luzes coloridas dançavam e formavam lâmpadas naturais, e era exatamente isso que ocorria naquele momento. Naquela cena digna de filme.
Ela estava lá, em frente à vidraça, sem nunca deixar seu posto por um minuto. O vestido negro até os joelhos, rodado e inteiro rendado, as luvas de renda curtas, o sapato negro, o chapéu que lhe caía com uma renda que tinha até do começo ao meio, pequena bolinhas de tecido com fios pendendo delas, escondia o rosto que observava o sol das 17h30min. A vestimenta de negro deixava a viúva mais encantadora do que antes. A deixava ainda mais linda.
Com passos divagares e palavras cuidadosas, os convidados, amigos, parentes lhe dirigiam palavras que a irritavam e que atacavam o seu amor vulnerável cruelmente.
-Senhora Perpetua? Meus pêsames. Imagino o quanto deve estar sendo difícil para você. Sinto muito.
'Fujam. Vão embora. Todos vocês. Vão embora daqui. Deixam-me em paz. Vão embora seus malditos mentirosos. Vão embora seus mascarados cínicos. Vocês não podem tirá-lo de mim. Vocês não podem tirar minha vida, seus demônios. Monstros. Vocês não podem congelar o meu fogo. Vão embora. '
'Vocês não podem. Não podem. Não podem. '
Perpetua estremeceu. Sua respiração falhou dois sopros quando o padre fez a cruz naquele cadáver em cima da mesa. Era a hora. Já estava na hora. Essa era a ultima vez que veria seu rosto. A última imagem que gravaria dele. E mesmo estando morto, mesmo estando naquele terno funerário ele ainda era lindo. Ele ainda era ele. Sem a presença da morte, só como se estivesse dormindo. E ela o odiou por isso. Odiou aquele cretino por enganá-la tão bem. Por fazer pensá-la que se o chamasse pelo nome, ele iria dizer 'Sim?', por fazê-la acreditar que era só um sono, nada mais. Ela queria esmurrá-lo. Arrancá-lo daquela cama cruel e fugir daquele lugar sufocante fedendo a morte e lágrimas como sempre faziam quando reuniões familiares o enchiam. Ela queria que ele vivesse. E o odiou por não atender a este único e ultimo pedido.
Pouco á pouco, os convidados se despediam daquele ser que trouxe o sol para a lua em apenas uma noite. Daquele ser que a ousava deixar. E então, chegou à vez dela.
Perpetua se aproximou do caixão. O cheiro de madeira envernizada se misturava com o da morte, e ela não sabia diferenciar qual era qual. Isso deixava Perpetua tonta e perdida. Seu coração falhou, suas pernas enfraqueceram e ela se desequilibrou. Seus passos miúdos transmitiam toda a dor que a dilacerava por dentro. Todo o fogo que se congelava agora. Enfim, o caminho até o caixão terminou. Ela estancou, permaneceu imóvel por um momento. Analisou o rosto que tanto beijou e adorou. Sua mão deslizou pelo rosto uma ultima vez. Acariciou-o. Beijou sua testa demoradamente e uma lagrima escorreu.Os convidados então se aproximaram para retirá-lo e enterrá-lo. Mas a raiva de Perpetua não permitiu. A raiva de Perpetua se formou em gritos e ameaças.
'Não. Não. Vocês não vão tocar nele. Ele é meu. Ele é a minha vida. Vocês não podem tirar a minha vida de mim. Vocês não têm esse direito. Vão embora daqui. Saia!Todos vocês!Saia!'
Ela se agarrou no caixão. Ela se agarrou a ele. Segurou em seus braços o seu amor. Ela abraçou o seu amor. Perpetua segurou o rosto de seu amor ao lado de seu coração.
'Você é a minha vida agora. Eu esperei por muito tempo. Não vá embora. '
'Eu não vou a lugar algum. '
Perpetua o abraçou pela ultima vez. Suas lagrimas borraram o lápis preto.
Descanse em paz. Amado esposo e filho. 1983- 2007
Perpetua colocou suas rosas ao lado da lapide de mármore. Ela seguiu o desenho do nome gravado. Sorriu com lagrimas nos olhos. Seu fogo se congelou.
'Não posso viver sem minha vida. Não posso viver sem minha alma. '
m. franco -
- Não posso viver sem minha vida. Não posso viver sem minha alma. (O morro dos ventos uivantes).
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